“Temos que lutar pela liberdade de expressão”

Por: David Rocha

O jornalista, produtor e compositor Nelson Rocha, 62, faz aqui uma retrospectiva da sua vida profissional. Filho de Salvador, nascido e criado no Centro Histórico, Nelson, que fez curso livre de jornalismo nos Estados Unidos e estudou literatura francesa em Paris, conta como iniciou sua trajetória na Comunicação, relatando experiências vividas no exterior e no Brasil, inclusive durante a ditadura militar.

Jornalivres: — Como foi que Nelson Rocha iniciou sua trajetória jornalística?

Nelson Rocha — Na verdade, minha primeira experiência foi no rádio, onde eu fiz um pequeno estágio na Rádio Cruzeiro e, em seguida, na Rádio Excelsior, que, na época, era na Praça da Sé. Depois fui para a Rádio Cultura, falei pela primeira vez no microfone e comecei a trabalhar no departamento de esporte, digamos que fui pupilo de França Teixeira e José Ataíde, dois grandes nomes do Rádio baiano.

JL — Quando surgiu a oportunidade de enveredar por outras vertentes do Jornalismo?

NR — À medida que eu estava participando da rádio, eu também comecei a escrever a convite de um amigo de rádio para revista dele, uma publicação esportiva. Foi quando despertou o interesse pela escrita. Eu, que sempre gostei muito de ler; então era a minha oportunidade de exercitar a escrita, o olhar, a crítica e, a partir daí, não parei mais. Passei pelo Diário de Notícias, pela Tribuna da Bahia, pela TV Aratu, TV Bandeirantes — onde apresentei o jornal local. Posteriormente na Europa, na Rádio Portuguesa, apresentei o programa Canta Brasil, só com músicas brasileiras e informações sobre o Brasil. Hoje, exerço o dia-a-dia do Jornalismo escrito, com planos de lançar um livro, exatamente uma coletânea de publicações, e continuo fazendo música e não jogo mais bola, mas palavras ao ar e no papel em branco.

JL — Em quais veículos impressos teve a oportunidade de escrever?

NR — Depois de algo em torno de seis meses escrevendo para a revista esportiva, logo em seguida eu fui para o Jornal Diário de Notícias, passei cinco anos na reportagem geral. Escrevi também para os jornais IC, da Cidade e Revista Manchete, durante estágio na sucursal de Paris e A Tarde. Atualmente, escrevo para a Tribuna e Jornal Repórter.

JL — Já aconteceu algum caso de censura ao longo da jornada profissional?

NR — Na época do Diário de Notícias, num belo dia estava na redação escrevendo uma matéria, quando chegaram dois cidadãos de paletó e gravata, encostaram na mesa e disseram “você é o Nelson Rocha?”, “Sim, sou”, “por favor, nos siga” e mostraram o emblema da Polícia Federal. Olhei para meu diretor de redação e disse “olha, estou sendo levado, avisa ao nosso diretor, vamos ver o que vão querer comigo”. Segui para a PF ali no Comércio e lá tive que responder por uma reportagem que nós havíamos publicado e que fez um grande sucesso porque abordava a questão do topless na praia, quando as meninas, numa atitude de vanguarda, exibiram os seios no Porto da Barra e em outras praias. Enfim fiz uma matéria mostrando esse momento na cidade, na beira do mar e respondi pelo meu texto. Não podia responder pelas fotos, por que elas não eram minhas. Fui interrogado sobre o conteúdo e eles fizeram algumas outras perguntas e depois fui liberado. Vivíamos um momento de Ditadura e a nudez também era censurada.

JL — O jornalista está sujeito a censura e até mesmo a manipulação dos fatos?

NR — Sem dúvida, tudo também depende do sistema político em evidência. Na época da ditadura a coisa era mais difícil, nós tínhamos que ter um cuidado com o texto, com o que as fontes nos passavam. O critério de comunicação sob uma ditadura, seja ela de esquerda ou de direita, é terrível. Nós vivemos numa democracia e temos que lutar pela liberdade de expressão. Nenhum governo pode tirar uma das conquistas mais relevantes da democracia. É importante ficarmos atentos por que nunca se sabe qual o partido que vai estar no poder amanhã ou depois. Se for um partido retrógrado, com tendências conservadoras, fascistas, a liberdade de expressão estará mais uma vez ameaçada.  Então, temos que estar sempre atentos com relação à liberdade de expressão, às conquistas sociais. O que a sociedade conseguiu, não pode abrir mão, deve, sim, continuar lutando por novas conquistas.

JL — Qual mensagem Nelson Rocha deixaria para a nova geração de jornalistas que estão em processo de formação?

NR O jornalismo é fantástico, principalmente quem tem a experiência da reportagem geral, que pode viver a cada dia uma nova aventura, na busca das fontes, da notícia, na apuração. Eu acho sensacional que você chega na redação e não sabe qual assunto que vão jogar no seu peito. É como se recebesse uma bola de repente e tivesse que parar no peito, tratar ela com carinho e chutar bonito. Então, uma dica para quem está cursando Jornalismo é que faça também constantemente o exercício do resumo, é preciso que se escreva mais e mais e apele para o poder de síntese, pois, dessa forma, você chega mais facilmente ao leitor da era digital.

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