“Eu finalmente me tornei a mulher que sou…”

Por: Victor Drexler

O termo “transgênero” é pouco conhecido no Brasil. Ele se refere a pessoas que não se identificam com o gênero a que foram designados ao nascer. Percebem essa diferença ainda crianças, aos 3 ou 4 anos, onde os pais têm que levá-las a médicos especializados nesse assunto e, assim, com o chegar da puberdade, elas podem começar o tratamento hormonal, que inibirá o corpo de tomar formas do gênero ao qual não se identifica e, após atingir, os 21 anos podem realizar a cirurgia de troca de sexo. A nossa entrevistada, Sofia Helena, que é uma mulher trans, nos conta um pouco sobre sua vida e como foi sua infância e adolescência antes de se assumir uma trans. Ela tem 20 anos e espera ansiosamente pela sua cirurgia de troca de sexo.

Jornalivres – Sofia Helena, fale um pouco sobre você.

Sofia Helena – Meu nome é Sofia Helena Feitosa de Castro, tenho 20 anos, nasci no dia 24 de janeiro de 1996, aquariana, bem palhaça ou bem séria depende do modo que eu acorde; amo cozinhar, cantar, ler, jogar vídeo game, passeios ao ar livre e, como você pode ver, uma pessoa normal, apenas com um detalhe incomum.

JL – Como foi sua infância?

S.H – Desde os meus 3 ou 4 anos, eu já dizia a minha mãe que era menina, fazia ela passar constrangimento porque íamos comprar roupas e eu chorava pelos vestidos, enquanto ela me vinha com roupas de menino. Os anos se passaram, eu fui me entendendo, me retraindo, até que me peguei em depressão, isso com 9 anos de idade, vivi mal até os 13, que foi quando, com uma ajuda da minha psicóloga infantil que Deus a tenha , e contei para minha mãe que não era só gostar de meninos, que eu me sentia uma mulher.

JL -– Sua mãe entendeu que você se sentia uma mulher?

SH – Minha mãe, de primeira, não entendeu, mas, com o tempo, percebeu que aquela era a minha essência, pois, mesmo como menino, sempre era confundida com uma garota. Um fato interessante foi quando eu e minha mãe fizemos um acordo, no dia 10 de dezembro, quando eu tinha 13 anos, que, se até os meus 18 anos, eu ainda acreditasse que sou a mulher que sou hoje, ela me deixaria livre para me tornar a garota que sempre fui. Eu evitava contato em público e relacionamentos chegou a acontecer uma vez , até que finalmente chegaram os 18 anos.

JL – E, aos 18, como foi?

SH – No meu aniversário, consegui o emprego que sempre sonhei: consultora automotiva.

JL – A partir daí, você conseguiu se ver como mulher?

SH – Em 2014, eu finalmente me tornei a mulher que sou. Não foi fácil, hormônios não agem da noite do para o dia, mas, magicamente em, 4 meses eu mudei incrivelmente, foi mágico poder ser reconhecida como a mulher que sempre fui, passei a ser aceita e respeitada.

JL – Seu emprego na concessionária, como foi?

SH – Em outubro de 2014, me demiti. Meus antigos chefes, com que trabalhei, me chamaram de volta. Trabalhei até mês passado, mas saí, pois precisava entrar no curso de enfermagem, um sonho antigo.

JL – Atualmente, aonde você mora?

SH – Eu vim há uma semana morar aqui no estado de Alagoas, na cidade de Arapiraca, onde estou fazendo o curso.

JL – Por que Sofia?

SH – Eram tantas opções que tinha em mente: Katherine, Helena, Caroline, Agnes, Maria, mas minha mãe disse que eu tinha cara de Sofia e, como geralmente uma mãe dá um nome a sua cria, sou adotiva, a propósito e eu achei legal, aceitei, aí só escolhi a Helena.

JL – Utiliza o banheiro masculino e feminino?

SH – Feminino. Nunca tive problemas, mas, antes da transição, eu passava por constrangimentos porque achavam que eu era uma lésbica indo no banheiro dos homens. Sempre um segurança ia lá, aí eu mostrava a identidade e me pediam desculpa.

JL – Já sofreu repressão de alguém ou sempre te aceitaram?

SH – Eu sofri antes da transição, quando eu dizia que não era lésbica, aí passava a ser o “viadinho”. Mas, depois da transição, não passei por isso, exceto pelos colegas gays: eles não entenderam e me crucificaram, mas alguns hoje nem me reconhecem, acredita? Quando revelo que sou eu, até se assustam.

JL – Você frequenta a praia?
SH – Vou, sim, mesmo não gostando de tomar banho na água salgada. Amo a brisa do mar, jogar vôlei e tênis.

JL – Usa biquíni?
SH – Sim, o pênis é tão pequeno que nem se nota.

JL – Você possui traços masculinos?
SH – Não, porque não sou homem, só nasci com um “câncer na vagina” falava isso pra mim há um tempo, quando eu vivia com ódio de mim mesma.

JL – O  fato de você ser uma mulher trans já te prejudicou na hora de conseguir emprego?
SH – Não, porque simplesmente não sou otária de abrir minha boca e dizer: “coleguinha, nasci com um pênis”, ninguém precisa saber da minha história. Pelo menos, ninguém que eu ache válido.

JL – Seu RG e outros documentos constam o quê?
SH – Meu nome e gênero atuais.

JL – Você comentou que pretende fazer a cirurgia, o que espera dela?
SH – Minha total libertação, finalmente ser normal. Às vezes dói, sabe? Demorar para acontecer. Hoje, por exemplo, estava pensativa sobre isso.

JL – Vai ser em Salvador? Quanto custa?
SH – Vai ser na Argentina, com o Dr. Cesar Fidalgo. Custará 6500 dólares, o equivalente a 26000 reais.

JL – Você acha justo um valor ser esse?
SH – Ele é o mais barato, sabe? E os resultados dele são incríveis, 100% funcionais, com orgasmos e tudo.

 

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